quarta-feira, 1 de maio de 2013

Não é com a faca que dissecamos, mas com conceitos...






Na abertura de seu Seminário, Livro 1, Os escritos técnicos de Freud, Lacan, nos seus comentários lembra que o pensamento de Freud é o mais perpetuamente aberto à revisão.
E diz: "É um erro reduzi-lo a palavras gastas. Nele, cada noção possui vida própria"

Freud “ousou dar importância àquilo que lhe acontecia, às antinomias da sua infância, às suas perturbações neuróticas, aos seus sonhos. Daí ser Freud para todos nós um homem que, como cada um, está colocado no meio de todas as contingências – a morte, a mulher, o pai. Isso constitui uma volta ‘as fontes e mal merece o título de ciência. O mesmo se dá para a Psicanálise e para a arte do bom cozinheiro, que sabe cortar bem  o animal, destacar a articulação com a menor resistência. Sabemos que há, para cada estrutura, um modo de conceitualização que lhe é próprio....” “ Temos de nos aperceber de que não é com a faca que dissecamos, mas com conceitos. Os conceitos têm sua ordem de  realidade original. Não surgem da experiência humana – senão seriam bem feitos. As primeiras denominações surgem das próprias palavras, são instrumentos para delinear as coisas.” “Toda ciência permanece, pois, muito tempo nas trevas, entravada na linguagem.”
 Mas Freud se impôs submeter-se à disciplina dos fatos, afastando-se da má linguagem, quando se vale da experiência. Desde a origem, sabe que só fará progressos na análise das neuroses se se analisar." (Lacan, Seminário 1, página 10)

sábado, 27 de abril de 2013

Como e quando a psicanálise se transmite? ...questões para um encontro





Escrever. Não posso.
                                                           Ninguém pode.
                                                           É preciso dizer: não se pode.
                                                           E se escreve.
                                                                       Marguerite Duras in: Escrever, 1994.

Quando o pintor Fontana fundou o movimento “espacialista” italiano, passando a atacar telas  brancas com golpes de giletes, depois de uma longa carreira, aureolada por museus e salas burguesas, seu  fornecedor de telas, em Milão, fez-lhe observar um dia que, ele mesmo, o próprio fornecedor ,ou, na verdade, qualquer um, poderia fazer o mesmo, produzindo as “giletadas”, que vinham fazendo   a fama do mestre. Fontana, bem humorado, respondeu: “Certamente, mas as que você produziria seriam falsas.”(Referência retirada da anedota citada no editorial do Boletim da APPOA, ano 2, no5, 1991)
Resposta pertinente, pois a arte consiste no ato, mais que na obra.
Da mesma forma, Marcel Duchamp (1887-1968), vanguardista de nosso século, cujo trabalho consistia no gesto de, tomado um artefato industrial de uso comum (é conhecida a obra do artista feita de um mictório) transformá-lo num ready-made. O objeto, uma vez assinado, transformava-se em obra.. A mestria da qual ele é testemunha não é a da forma, mas a do ato que, arrancando-o do uso comum, cotidiano, o institui, deixando perplexo o observador! Assim, também, os objetos depois de instalados em museus, vão aos poucos empalidecendo seus efeitos...
Alguma relação com a interpretação, a suspensão do recalque, o ato analítico?
Certamente levar uma peça de banheiro para uma exposição de arte, atrai polêmica! Um mictório não é uma peça bonita por si só, embora isso possa ser discutido, mas Duchamp buscava, na arte, o mais além do belo. Como ele mesmo se expressa:
[..].transformar todas as manifestações externas de energia, em excesso ou desperdiçadas, como por exemplo...o crescimento dos cabelos ou das unhas, a queda da urina ou das fezes, os movimentos impulsivos do medo, do assombro, do riso, da queda da lágrima, os gestos das mãos, o olhar frio, o ronco ao se dormir, a ejaculação, o vômito, o desmaio, etc.

Dizem que Duchamp, depois de oferecer aos seus convidados  preciosos charutos assinados por ele – imaginem que estes já os sonhavam em redomas de vidro ou vendidos a colecionadores – impunha que eles o fumassem na ocasião.

Não pretendemos ensinar aos analistas o que é pensar. Eles o sabem. Mas não é que o tenham compreendido por si. Aprenderam essa lição com os psicólogos. O pensamento é uma tentativa de ação, repetem eles gentilmente. (O próprio Freud cai nessa esparrela, o que não o impede de ser um pensador rigoroso e cuja ação se consuma no pensamento.) A bem da verdade o pensamento dos analistas é uma ação que se desfaz. O que deixa certa esperança de que, se os fizermos pensar nisso, eles, ao retomá-la, acabem repensando-a.( LACAN, J. A direção do tratamento. In: LACAN, J. Escritos, Rio da Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 622.)

Poder-se-ia dizer que a regra fundamental, da associação “livre”, da escuta, e, não, a ausculta do analista, como aquele que sustenta a demanda, introduz a possibilidade de a análise, como deslizamento significante, tornar-se passível de ser propagada, difundida, isto é, multiplicada, reproduzida por geração, dilatada, desenvolvendo-se por contágio, proximidade.Da mesma forma, se, com a oferta de escutar, o analista cria a demanda de o sujeito se dizer, de “ser curado, de ser revelado a si mesmo, de ser levado a conhecer a psicanálise, de ser habilitado como analista,” poder-se-ia, como faz questão de enfatizar Lacan, conseguir o que, no comércio comum, tanto se pretenderia realizar!
Conseguiríamos dizer que a psicanálise, sim, com certeza, se pode divulgar! Vulgarizá-la, criar demandas com ofertas a granel e no atacado, na mídia, e ao modo quick de nosso tempo, em todo canto e lugar. Basta acreditar na simples regra analítica como motor da transferência, basta acreditar no amor e na demanda que nunca há de cessar, já que o sujeito nunca fez outra coisa além de demandar? Aliás, o sujeito só se constituiu e só pôde viver por isso?
Como e quando, entretanto, a psicanálise se transmite? O que dela se escreve?     

O quê e como um analista transmite, então, mais além da 'divulgação', mais além da 'propagação', mais além do amor e dos significantes, do 'intercâmbio', da 'dialética da interlocução', mais além do 'pensamento', pois ele só o é – o analista –  quando não pensa?
Ângela Porto

domingo, 14 de abril de 2013

A OUTRA ESCRITA ou...que as crianças cantem livres!...





Volpi, aniversário de 117 anos

Respondendo a um comentário prévio que fiz sobre um texto de Solange, ela me envia este, muito oportuno neste momento de nosso trabalho como blogueira do Tear 4, incumbida do registro de  um estudo, do movimento e das contribuições que ele provoca...

Ângela,

Vá em frente, esses textos não estão comprometidos com ninguém. Vou guardando, uma vez que o Ronald os aprecia e tem esperanças de um dia publicá-los. Não mandei nada para o seu blog, porque não considero os meus textos atuais bastante "psicanalíticos", enquanto meus colegas de curso e as pessoas em geral que o leem acham que trazem sempre um "ranço" psicanalítico. É, pode ser, mas, foi dessa fonte que eu bebi. Cumé que eu vou negar, né, amiga? E já que você gostou, mando-lhe um outro. Sua opinião é muito importante pra mim. Na verdade, a intenção do Ronald com o curso dele é fazer com que a gente produza o mais livremente possível, sem censuras, atrelados a coisa nenhuma, ele evita até corrigir o português. Escrever é uma coceirinha de bicho de pé. Uma dor e um prazer ao mesmo tempo, a gente só não fica indiferente, uma vez que o bichinho deu o ar da graça. Grande abraço, SOL PS- Também tenho uma dificuldade enorme, com esse aparelhim aqui, esse negócio de recorta, cola, bota, tira, fico completamente perdida, só sei escrever o texto, corrigir, salvar, arquivar. E pronto. Era paleológica!

A OUTRA ESCRITA

"Bebi as palavras com o leite materno. Me lambuzei delas. Eram esses sons mágicos que me afagavam, que afastavam meus medos, que me aconchegavam, me acusavam, me nomeavam. Eu era falada como todas as criancinhas no mundo, antes de falar, e ao absorver essa fala  a adotei como minha. É minha escrita no mundo. Mas como o hadish árabe MAKTUB – está escrito, periga ficarmos enquistados nesse beco sem saída do pau que nasce torto. Maktub. E seguimos repetindo essa escrita. Não sou diferente, venho vestindo alegremente o modelito apertado dessa escritura paralisante, sufocante. Sou, como você, objeto de uma cultura, assujeitada a um discurso familiar e social, inserida numa fala, numa história. Nada contra. Todo mundo embarca nessa canoa furada. É a única que existe. Mas é aí que me rebelo. Não quero ser só objeto. Posso ser sujeito. Quero atracar em outros portos. E aí escrevo, me inscrevo numa nova escrita.
Não sei como, nem quando as costuras dessa escrita familiar e social começam a estourar. E a rebeldia de um novo discurso vai surgindo, surpreendente, desconcertante. As palavras velhas me dizem coisas novas, têm um novo formato. Escrevo. Não me descrevo. Nessa hora não sei direito quem sou. No lodo do inconsciente as palavras minhocas pululam e se retorcem até virem à tona. O anzol do desejo fisga-as, apesar de mim. Não as escolho porque não as possuo. Elas me possuem. Escrevo porque sou escrava. Escrava da liberdade de uma nova escrita, que me rói e destrói essa vontade malemolente de não me envolver. E ao escrever, me afasto do particípio passado dessa antiga escrita paralisante. Resisto, mas o alcatrão das palavras já tomou conta do meu pulmão. Uma vez inspirada, a fumaça das ideias já se insinuou e se espalhou pelo meu organismo. A nicotina da compulsão não deixa escolha. Mesmo que eu tenha outras dez culpas, desta já estou absolvida, tenho indulgencia plenária. Escrevo porque sou incompleta. Escrevo por esse mal estar gigante. Escrevo porque não sou nada disso e sou tudo isso. Escrevo porque não dá mais pra segurar as velhas palavras me mostrando novos sentidos, me abrindo feridas e possibilidades. As palavras seguram a minha mão e acendem a luz para que eu não tenha de enfrentar o vazio do escuro. Escrevo porque existe a angustia de não saber. E é com palavras que construo essa débil e escorregadia ponte que me permite atravessar fronteiras. Escrevo porque me faltam certezas e a dúvida me corrói. Pra arrefecer o mal estar desse lugar incômodo, forro com palavras o chão do meu desejo. Não passa de uma tentativa. 
Afinal,
"Pode não ser esse calor o que faz mal,
Pode não ser essa gravata o que sufoca
 Ou essa falta de dinheiro que é fatal”  *"

*Taiguara “Que as crianças cantem livres”

Maria Solange Amado Ladeira    25/09/12

sexta-feira, 12 de abril de 2013

É como desejo do Outro que o desejo do homem ganha forma...







"Vim ...duas vezes, como prometi à minha mãe"...
"Minha mãe me disse para eu 'ajudá-la', vindo menos à minha análise...ela está 'apertada'..."
"Minha mãe acha que eu preciso..."

“Com efeito, é muito simplesmente – e diremos em que sentido – como desejo do Outro que o desejo do homem ganha forma, porém, antes de mais nada, somente guardando uma opacidade subjetiva, para representar nele a necessidade. Opacidade que diremos de que maneira constitui como que a substância do desejo.
O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade: essa margem é a que a demanda, cujo apelo não pode ser incondicional senão em relação ao Outro, abre sob a forma da possível falha que a necessidade pode aí introduzir, por não haver satisfação universal (o que é chamado de angústia). Margem que, embora sendo linear, deixa transparecer sua vertigem, por mais que seja coberta pelo pisoteio de elefante do capricho do Outro. É esse capricho, no entanto, que introduz o fantasma da Onipotência, não do sujeito, mas do Outro em que se instala sua demanda ( já era tempo de esse clichê imbecil ser recolocado de uma vez por todas, e por todos, em seu devido lugar), e , juntamente com esse fantasma, a necessidade de seu refreamento pela Lei.”

Interessante, longo e definitivo parágrafo da “Subversão do sujeito e dialética do desejo”, que contem, no seu desenvolvimento, praticamente todos os princípios da constituição do sujeito, de sua alienação significante, de suas relações com a fantasia, na particularidade de sua demanda, e, até, o direcionamento ético da experiência analítica, e se o quisermos assim aprofundar, o lugar e a implicação também definitiva do analista, desde a transferência, em todo o processo.
                Vejamos algumas colocações breves do parágrafo:
“ ...é como desejo do Outro que o desejo do homem ganha forma...”
Não há constituição possível do sujeito, desde que tomemos o inconsciente estruturado como linguagem, sem o concurso do Outro, lugar do tesouro dos significantes, ao qual, desde sempre e para sempre o sujeito estará a-sujeitado, como falante. É desse Outro que o sujeito recebe a própria mensagem que emite, esse Outro que também é testemunha da Verdade, da ficção posta como Verdade, da estrutura de ficção que institui e incumbe a realidade de sua versão particular e fantasmática.
O desejo do homem “ganha forma”, fôrma engendrada pelo que, “do Outro”, o subjuga radicalmente.
“Do Outro” também indica a pertinência fantasmática a que o sujeito, desta posição de opacidade subjetiva, pode fazer-se experimentar, no fantasma, como objeto do desejo do Outro.
 “O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade..Margem que embora sendo linear, deixa transparecer sua vertigem...por mais que seja coberta pelo pisoteio de elefante do capricho do Outro”
Vertigem: sensação de falta de equilíbrio no espaço, que faz parecer ao indivíduo girarem todos os objetos á  sua volta;desmaio,desfalecimento, síncope, delíquio(liquefação de um corpo sólido).(dicionário informal, on-line)
Lacan aqui se refere ao papel tamponador do fantasma, onde, de seu desejo, o sujeito se esquiva, como objeto. ($<>a)
E aqui é interessante considerar que o “refreamento pela Lei” a que Lacan se refere, inclui levar em conta a autonomia do desejo e a mediação que o mesmo é capaz de fazer por inverter o incondicional da demanda de amor pelo qual o sujeito permaneceria sob o jugo do Outro, para “elevá-lo à potência da condição absoluta” ( onde o absoluto quer dizer desprendimento).
Isto quer dizer que, é preciso extrair do fantasma os “índices de uma significação absoluta”. Fazer isso é romper o elemento fonemático constituído pela unidade significante até seu átomo literal. A fórmula do fantasma é introduzida para permitir um sem número de leituras das relações entre sujeito e objeto, na sua particularidade radical, até o esvaziamento da demanda.
Para o que, conta-se com um analista.

 Ângela Porto

sexta-feira, 22 de março de 2013

HABEMUS MAMAS? País rico vai a Roma...sem miséria!




Há, de fato, um Brasil rico.
E um outro em certa ascendência. É inegável, como dizer que não?
Seria um desconhecimento provocativo e ao mesmo tempo conivente com o discurso populista, que mira, também, e diretamente, a ascensão dos votos da ‘miséria em extinção’, esta sim, cabível apenas, até agora, nesse mesmo discurso fechado das campanhas do Governo Federal.
Não é o caso de insistir em controvérsias agora, nesta reflexão, mas, sim, fazer avançar um pouco o que nesses dias me inquieta. Desconforto dos distintos tempos da mesma e reincidente frase que norteia os rumos do país, em sua desgastada proposição,"País rico é país sem miséria", desde os mais antigos e alguns já depostos conclaves da Presidência da República.

Entre frase e fatos, uma gramática

Março/2011-Março/2013:
Distorções’, no uso de recursos públicos, liberados em 2011, através dos órgãos oficiais do Estado, para obras de restauração de áreas destruídas pelas chuvas no Estado do Rio de Janeiro, reabrem, em 2013, os cofres do Governo Federal que, diretamente de Roma, autoriza o repasse de mais alguns  milhões de reais aos mesmos órgãos e poderes
Março/2013:
Uma 'assinatura' sobre o cheque em branco das coalizões partidárias, paga também o ‘Voo’, e todas as Pompas necessárias à comitiva oficial da Presidência, em direção a Roma e, quem sabe, mais ainda, juntando os dois fatos, dos destroços das enchentes e da nobreza da viagem, o voo em direção,  também, a uma antecipada compra do 'reingresso' às eleições de 2014.

vai, meu irmão, pega esse avião,
você tem razão de correr assim
nesse frio, mas veja
o meu Rio de Janeiro
antes que um aventureiro
lance mão...”

"País rico é país sem miséria"

O tempo reabre os cofres mas também reabre a frase. Uma ex-canção...

A frase do primeiro tempo se atualiza nos desígnios do ‘encontro com o Papa’, redimensionando os entrelaçamentos e os cortes que tornam distintos ‘discurso’ e ‘ato’.
Este é um trabalho clínico, mas por que não trabalharmos juntos, para tentarmos concluir que momento é este que exige, de cada um, uma urgente tomada de posição?
Para melhor avaliação de nossos discursos, entre nossos pares e de nossas diferenças, deixemos que trabalhe em nós a lógica desta gramática.
E que esta elaboração dure somente o tempo necessário para que os recursos, que ainda nos restam, não se transformem em cumplicidades devotadas ao poder alienante de um discurso fechado.
Atentemo-nos para o elementar parentesco dos significantes que circundam um imperativo de país, palavras-peças destacadas na abertura da aspiração lógica do desejo, a ser reencontrado entre os intervalos de duas travessias:

O  rico  di-uma  NÃO É SEM  a  miséria  de outra.

E para tanto trabalho, meu irmão, nessa aposta de seguir em frente, “não basta ser Tirésias...”

Habemus mamas?


Lúcia Montes.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A criança, sua mãe e a linguagem – do não-sentido e da morte –




Desde nosso último encontro de leitura e conversas de estudos, tem surgido muitos assuntos novos e casos relacionados a esta ‘hora da criança’ no mundo. Nessas tantas e diferentes abordagens tive o privilégio de ser ouvinte de um acontecimento entre uma criança e sua mãe.  Vamos tomá-lo a princípio e informalmente apenas como um fato de linguagem, porque assim pode-se prescindir de qualquer variável pessoal ou histórico-familiar.
Porque esta é uma situação pertinente às questões publicadas na postagem anterior, estou trazendo direto para o Blog o convite para que mais pessoas participem deste trabalho de investigação.
Estamos às voltas com alguns termos e conceituações que ganharam especificidades para a psicanálise, mas  ficamos aqui com a tarefa de, ao menos, tentar abrir a conversa para um pouco mais além de nossos limites, e assim estendermos a possibilidade também de mais contribuições para o tema.
Para quem quiser se endereçar ao texto de referência, nesse momento, estamos continuando a leitura do Seminário 16, de Lacan, “De um Outro ao outro”. (Ed.Zahar ), ao qual se referem as citações deste recorte.
Existe um saber que diz: Há em algum lugar uma verdade que não se sabe, e é ela que se articula no nível do inconsciente. É aí que devemos encontrar a verdade sobre o saber.
Não foi isso que dissemos sobre o sonho? (...) É um erro nos perguntarmos, a propósito do sonho, o que quer dizer isso?, pois não é isso que importa. O que nos importa é onde está a falha do que é dito?, e isso num nível em que o que se diz é distinto do que se apresenta como querendo dizer alguma coisa. No entanto, isso diz alguma coisa, sem saber o que diz, já que somos forçados a ajudá-lo por meio de nossa ponderada interpretação.
Saber que o sonho é possível, isso deve ser sabido. (...)
Em função do tempo que me apressa lembro a analogia econômica que introduzi sobre a verdade como trabalho. Pelo menos no discurso analítico, o trabalho da verdade é bastante evidente, por ser penoso. (...)
Inversamente, é à função do preço que homologuei o saber. O preço certamente não se estabelece por acaso, não mais do que qualquer efeito de troca. Mas é certo que o preço em si não constitui um trabalho, e é esse o ponto importante, porque tampouco o saber o constitui, digam o que disserem.
Isso é uma invenção dos pedagogos, o saber. (...) Não digo: Algum dia vocês aprenderam alguma coisa?, mas sim: Saber algo não é sempre algo que se produz como um clarão? (...)
O saber é isto: alguém lhes apresenta coisas que são significantes e, da maneira como estas lhes são apresentadas, isso não quer dizer nada, e então vem um momento em que vocês se libertam, e de repente aquilo quer dizer alguma coisa, e é assim desde a origem. Isso se percebe pela maneira como a criança maneja seu primeiro alfabeto, que não é aprendizagem nenhuma, porém um colapso que une uma grande letra maiúscula com a forma do animal cuja inicial supostamente corresponde à letra em questão. A criança faz ou não faz essa conjunção. Na maioria dos casos, ou seja, naqueles em que ela não é cercada por uma atenção pedagógica demasiadamente grande, ela a faz.”  [‘O acontecimento Freud’]
E quanto à verdade?... “Se em parte alguma do Outro é possível assegurar a consistência do que é chamado verdade, onde está ela, a verdade, a não ser naquilo a que corresponde a função do a ? (...)
Nesse nível, [de um grito vazio, do sofrimento de ser a verdade, um grito mudo], o que pode, no Outro, responder ao sujeito? Nada senão aquilo que produz sua consistência e sua ingênua confiança em que ele é como eu. Trata-se, em outras palavras, do que é seu verdadeiro esteio – sua fabricação como objeto a. Não há nada diante do sujeito senão ele, o um-a-mais entre tantos outros, e que de modo algum pode responder ao grito da verdade, mas que é, muito precisamente, seu equivalente – o não-gozo, a miséria, o desamparo e a solidão. Tal é a contrapartida do a, desse mais-de-gozar que constitui a coerência do sujeito enquanto eu.” [‘Da mais-valia ao mais-de-gozar’].

Bordas de um desamparo anunciado

--- É a Vovó (mãe da mãe)... que já morreu !...
--- Ela morreu de fome, mamãe?
--- Não... .... ....
--- Ela morreu de sono?!!

 Algumas semanas antes a criança já havia se posicionado diante da acolhida carinhosa do pai:

---- ... dormiu bem filho?
----  Dormi.
----  Sonhou comigo?
----  Não, sonhei sozinho.

A condição de ‘seriedade’ no discurso, para a psicanálise.

Voltemos a meu discurso e ao que pretendo com um discurso válido:
Vou compará-lo ao traçado de tesoura nessa matéria da qual falo quando evoco o real do sujeito. A maneira como o traçado de tesoura cai na estrutura, ela se revela pelo que é. Se passarmos o traçado de tesoura em algum lugar, as relações mudam, tanto que o que não se via antes passa a ser visto depois. Dizendo, ao mesmo tempo, não ser uma metáfora, que ilustrei com o traçado de tesoura na banda de Moebius, que a transforma numa banda que já não tem nada a ver com o que era antes. O passo seguinte a ser dado é perceber, a partir dessa transformação, que o traçado da tesoura é, em si mesmo, toda a banda de Moebius. ...
Digamos que, no princípio, não vale a pena falar de outra coisa senão do real em que o próprio discurso tem conseqüências. ... Foi o que de minha parte, chamei de condição de seriedade, da última vez. (...)”
“ A estrutura, portanto, é real. Em geral, isso se determina pela convergência para uma impossibilidade. É por isso que é real.
O que eu digo postula a estrutura, porque visa a causa do próprio discurso. ... repito-o, para os surdos, o que o discurso visa é a causa do próprio discurso.”


 Lucia Montes


Comentário à postagem :"DOPING DAS CRIANÇAS" O excesso do discurso vigente e... o que acontece com o corpo?"



Áurea,

Vou indo por esta reabertura que você faz. Acho que é disso que se trata no contexto clínico em que a escritura, ou sua impossibilidade, indicam a inserção do discurso do analista também nos caminhos do sintoma ‘na cultura’. A trajetória traçada por sua leitura do ‘conjunto familiar’, torna viável prá mim a formulação de algumas questões importantes sobre este lugar da ‘criança’ aí, enquanto resto deste conjunto ou grupo familiar.
Não sei se é exatamente este o raciocínio, mas me parece que tudo o que ‘socialmente’ se institui a partir daí, deste arriscado e perigoso ‘jogo médico-familiar’, fica restrito aos becos sem saídas da Demanda. E aí, nesse caso:
A  esse resto-criança, o que resta ? Quem o nega ? Quem o consome ? 
Manter assim fechado este circuito da Demanda, fazendo-o girar apenas em torno da chama ardente do Saber e da Mestria já foi fonte de muitas outras orgias sacrificiais em nossa ‘humanidade’...

Mas quero fazer valer aqui que vivemos ainda, também, sob a égide de uma ‘não-toda’ imunidade ao desejo quando testemunhamos, em nosso dia a dia, a viabilização de um ‘outro modo’ de discurso. Este que ao modo de cada um, a qualquer momento poderá nos surpreender escrito entre nós. Este que por ser sempre inédito terá preservada sua autenticidade operando cortes na rede das cumplicidades...

Lúcia Montes