terça-feira, 22 de novembro de 2016

“CRIANTIA E CONTOS”: Cada Caso é uma Letra.



“Os livros são objetos transcendentes

Mas podemos amá-los do amor tátil

Que votamos aos maços de cigarro.

Domá-los, cultivá-los em aquários,

Em estantes, gaiolas, em fogueiras.

Ou lançá-los para fora das janelas.” [Caetano Veloso – “Livro”]

Voz escrita daquilo que se ouve.

Acolhimento que se despoja no ato.

Escrever

“um tom para a voz

um tom pra dizer

um tom pra viver.” [idem]

O tempo da esperança, é o que retorna aos meus ouvidos através deste livro que não acabo de ler.  Nem sei se daria para fazê-lo, pois são tantos espaços que, com ele, agora em mim se recreiam como alegres lembranças novas. Antigos prazeres inacabados que a leitura provoca e passa a me contar neles. Algo aprendido com ‘isso’ ... que o contador de histórias recria e faz renascer em infâncias.

“CRIANTIA E CONTOS”

Dimensão do Possível que reaviva também meus sentidos do trabalho com a Psicanálise.
Surpresa, é o efeito tácito e único que advém do discurso sem palavras, que a leveza da escrita deste livro encerra:
Testemunho daquilo que se escuta e que não mais ficará esquecido...
Janelas, portas e coração abertos na Psicanálise em Extensão.
Transmissão e passagem por onde o livro de Angela Porto se lança ao advento de um Novo Leitor.

Lúcia Montes.

Belo Horizonte, 22 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016


   Criantia, do latim, é o que está em criação...
   Este livro, se origina de outra criação, o blog “Criantia e Contos”(www.criantiaecontos.blogspot.com), on-line desde 2010.  Pretendi que fosse um lugar de escrita aberto aos que se dispusessem a ler, nos contornos das palavras de uma criança ou nas entrelinhas do que ela não consegue dizer, a rica elaboração de seu momento, sempre pulsante e cheio de perguntas.
  Entre esses me incluí, como um ouvinte atento e como blogger. Talvez me parecesse o lugar mais assemelhado ao lugar de um analista.
   Um blogger é um mediador. Através dele, pretende-se que um vazio, este sim, mediador verdadeiro, possa permitir trançar e escrever, daquilo que nos trabalha, desde uma palavra até uma interjeição, desde um desenho até um rabisco vindos de onde vierem, chegue até onde chegar... nossa experiência.
Ali me deixei trabalhar pelas questões das crianças, aquelas cuja proximidade me foi mais rica, de cuja escuta me vali, para, por que não, tratar o que, do mais íntimo e particular de cada um, está sempre em tratamento: a vida.
 Da exigência do trabalho à cordialidade da forma, não há necessariamente incompatibilidade.  O cordial é o que vem do coração. Não se pretendem interpretações psicanalíticas, nem reflexões pedagógicas ou educativas. Não há correções nem censuras que durem mais que o segundo esperado da presença de um adulto, ouvinte sujeitado às regras da cultura e tocado pela surpresa.
Os ditos e fatos falam por si. Eventualmente faço comentários, talvez como efeitos de minha inserção neles, como ouvinte, participante ou até mesmo, como sujeito interpretado por um dizer(!) Talvez por puro prazer!
 As estorinhas das crianças primam pela leveza. São breves, condensadas e provocam surpresa, pois abrem um espaço à verdade. Têm a estrutura do chiste que, como tal, instiga a sua transmissão a um terceiro e provoca riso. Não são piadas, é importante ressaltar, mas podem eventualmente tratar-se de fino humor. E o humor foge ao “politicamente correto”. Vale-se dele para desobedecê-lo. O humor é uma forma sublimada de lidar com as dores do existir, sem perder a graça.
E as crianças são mestras nesse saber.
As crianças, em constituição e ainda prenhes de censura, fazem valer sua intimidade com o que angustia, o que mais se aproxima da verdade, o que tange a experiência de tentar escrever, bordejar o que não pode ser escrito, mas insiste: a vida, a morte, o sexo e a sexualidade, o desejo e a verdade!
Publicar estes ditos de crianças é nos dispormos ao chiste e ao humor que eles providenciam. É podermos todos nos divertir e aprender com eles.
Não há expectativa, nem idealismo, só uma aposta insistente na vida. As crianças acabam levando a gente a renovar esta aposta, todos os dias. 
E aqui me valho, de novo, de uma criança e de seu escrito.
Dedicatória a seus leitores, no seu livrinho, escrito à mão:
“Para você guardar e se divertir pelo resto de sua vida!”
Publicar é guardar e lançar fora. Ela sabe que há uma parcela de satisfação de que se usufrui naquilo que se guarda e daquilo que se lança fora.
Faço essas minhas palavras também.


Angela Porto

segunda-feira, 11 de abril de 2016

POR UMA LETRA QUE ESCREVA ÉTICA. Lampejos De Um Instante Vazio de Ser



Observamos que às vezes somos pegos de surpresa por uma Homofonia que, em conversas corriqueiras despertam uma curiosa dúvida coletiva, numa espécie de estranheza frente a um “como é mesmo que se escreve?  É com dois esses? Ou cê cedilha? ”
O inconsciente, estruturado como uma linguagem, faz suas manifestações assim, quase que como num truque de esconde/mostra faz suas travessuras numa espécie de falha ou de um tropeço que nos desperta. Por essa fresta de luz vamos ao enigmático conflito da nossa divisão de ser falante/falado, na inquietante condição de não sermos os reais detentores das palavras das quais somos emissários/destinatários. Há um desejo em causa aí.
Em “A Instância da Letra no Inconsciente”, um trabalho minucioso por sua visada literal e clínica, Lacan propõe uma problematização conceitual da Função da ‘Letra’, como possibilidade de uma transmissão no real da experiência analítica, por uma centelha que passasse entre audível e legível, com a particularidade de não anular a porção de ‘enigma’ com que o desejo inconsciente desafia nossa ‘filosofia natural’.
É então por uma elaboração lógica que Lacan articula a premissa de que o escrito é necessário à decifração de uma escuta que reescreva a gramática particular daquele som e re-enderece ao sujeito as assonâncias do que aí sutilmente se insinua.
Com esta perspectiva literal de quanto se perde de vida, quando não se cria as condições necessárias para dar lugar ao singular do desejo, Lacan traz à tona o paradoxo de um Escrito para ser Ouvido nas urdiduras de uma Palavra que se faça Ler.
Freud atravessou guerras, e teve que se exilar, em meio aos conluios tão evidenciados em seu insistente trabalho de alertar, sobre a íntima captura narcísica das paixões em que o Humano se deixa envolver, no silencio imantado do gozo dos ideais, pelo prazer de saber e de dominar o outro. Gozo que se instaura como um tempo anterior e imanente ao estatuto de humanidade. Tempo em que a linguagem se trespassa em Ser, como servidão à condição autônoma da liberdade estruturada como Neurose.
A Neurose é para Freud uma interrogação que o Ser coloca para o Sujeito, “lá de onde ele estava antes mesmo que o sujeito viesse ao mundo”.
Mas, contudo, há que se atualizar sempre pelo trabalho que nos faz seguir nas trilhas da experiência que ensina o indestrutível do desejo na subversão do sujeito e, mais ainda, perseverar no que for possível de se fazer saber da verdade daquilo que no humano grita através de seu escrito,
Voz a se ouvir na singularidade da letra que chega ao destino.   
Através do poeta, deixemo-nos atravessar pelo poema.

“Cruzou por mim, veio ter comigo, numa Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...)
Sinto uma simpatia por essa gente toda, sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão da cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a Humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autenticas) nos olhos, Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

A Plácida Face anônima de um morto.
Assim os antigos marinheiros portugueses,
Que temeram, seguindo, contudo, o mar grande do Fim,
Viram, afinal, não monstros nem grandes abismos,
Mas praias maravilhosas e estrelas por ver ainda.
[Fernando Pessoa – Poesias de Álvaro de Campos]
  
                                                                                                                                 Lucia Montes

sábado, 22 de agosto de 2015

ÉTICA, por que não? ....e Mais, Ainda

O Pintassilgo, Carel Fabritius, 33 x 22 cm, 1654

“Me aconteceu de não publicar A Ética da Psicanálise. Naquele tempo, era pra mim uma forma de polidez... Com o tempo, aprendi que podia dizer sobre isto um pouco mais. E, depois, percebi que o que constituía meu caminhar era da ordem do não quero saber de nada disso.
É sem dúvida isto que, com o tempo, faz com que ainda eu esteja aí, e que vocês também, vocês estejam aí. Sempre me espanto com isto... ainda.”
“A Ética da Psicanálise, é talvez hoje, de todos os seminários que algum outro deve publicar, o único que eu mesmo reescreveria, e do qual eu faria um escrito. Tenho mesmo que fazer um, de qualquer modo. Por que não escolher aquele? ”
“Não há razão para a gente não se colocar à prova, e para não ver como, esse terreno, de que Freud fez seu campo, outros o viam antes dele. É uma outra maneira de provar o de que se trata, isto é, que esse terreno só é pensável graças aos instrumentos com que se opera, e que os únicos instrumentos, cujo testemunho se veicula, são escritos.”
[J.Lacan – Seminário XX – Mais, ainda]

Com este recorte, antes do começo, estamos propondo dar início a um estudo do Seminário XX de J. Lacan – Mais, Ainda – fazendo as incursões necessárias pelas passagens abertas em Seminários anteriores, e indicadas aí por Lacan, como possível referência a um outro modo de amarração no seu incessante Retorno a Freud.
Uma trilha que, a princípio, pensamos ser percorrida a partir do ‘Paradoxo do gozo’ em sua discussão ali da abordagem do tema da Ética em Aristóteles, no Seminário VII, "A Ética da Psicanálise".
Do Seminário XI – "Os 4 conceitos fundamentais da psicanálise", as problematizações do objeto a, nas abordagens do Olhar e o Quadro, em sua temporalidade lógica de Identificação para o sujeito.
Do Seminário XVIII – "De um discurso que não seja do semblante", as distintas formulações para Significante e Letra; para Linguagem e Escrita; e a inscrição lógica do falo enquanto Função.
Buscaremos, no passo a passo deste Estudo e da Leitura de cada um, manter a visada do lugar do analista enquanto “encarnado por um semblante de a” para que a análise “opere uma intervenção ao nível do inconsciente".
Obs: Contamos com que a leitura do Seminário 20, "Mais, Ainda..." de Lacan, disponível  em Francês e Português, e o cotejamento pontual dos mesmos, nas suas diferenças de estabelecimento e tradução, possam contribuir com a precisão de nosso estudo e  elaboração.

Informações e Contatos:

Ângela Porto (angelaaraujoporto@gmail.com) fones (31)32812212 e (31)91126575
Lúcia Montes (mluciamontes@gmail.com) fones (31)32238088 e (31)88758817

Local: Rua Fernandes Tourinho, 470, Funcionários, Belo Horizonte
Data de início: 14/09/2015 às 13,30 h

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Tecendo Travessias



                "Eu atravessava no meio da tristeza. De feito, eu carecia de sozinho ficar. Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas - isso procuro. Homem como eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo algum desespero.
            Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Fui indo. De repente, de repente, tomei em mim um gole de um pensamento - estrato de ouro: pedrinha de ouro. E conheci o  que é socorro.
(.....)
Bem, rezar aquela noite, eu não conseguia. Nisso nem pensei. Até para a gente se lembrar de Deus, carece de ter algum costume. Mas foi aquele grão de ideia que me acuculou, me argumentou todo. Ideiazinha. Só um começo. Aos pouquinhos é que a gente abre os olhos; achei de per mim. E foi: que no dia que amanhecia, eu não ia pitar, por forte que fosse o vício de minha vontade. E não ia dormir nem descansar nem sentado nem deitado. E não ia caçar a companhia do Reinaldo, nem conversa, o que de tudo mais prezava. Resolvi aquilo e me alegrei. O medo se largava de meus peitos, de minhas pernas. O medo já amolecia as unhas. Íamos chegando numa tapera, nas Lagoas do Córrego Mucambo. Lá nós tínhamos pastos bons. O que resolvi, cumpri. Fiz. Ah, aquele dia me carregou, abreviei o poder de outras aragens. Cabeça alta - digo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá. (...) A vida da gente faz sete voltas - se diz. A vida nem é da gente."   [João Guimarães Rosa - 'Grande sertão: Veredas'].


Uma passagem de ano em paz são nossos votos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mais-além da Aparência

Arlequim com violão, 1919
Juan Gris (Espanha, 1887-1927)
Perguntado sobre qual verso da poesia brasileira gostaria de ter escrito, o poeta Carlos Drummond de Andrade foi direto:

“Não chore ainda não
 Que eu tenho um violão
 E nós vamos cantar.” (Chico Buarque de Holanda)

Fala e Escrita. Lágrimas e Violão.
O Dito e o Dizer. O Fato e a Voz.
O ATO é um discurso sem palavras e quem o faz só depois saberá que se deixou conduzir por própria escolha.

Apropriar-se de um verso, de um gesto,
De uma lágrima.... de um resto.
Falar versos, gesticular proezas,
Chorar tristezas... até se desmanchar.

O APARATO da palavra esconde o desmanchado de um sujeito em seu discurso, mas não tem ainda todo poder de apagá-lo em seu desejo, este, sim, é o que resiste. E isto porque reordenando-se de suas letras, restos caídos de discursos, este mesmo sujeito emergirá do ato, sem palavras, da escolha apropriada de não recuar de seu desejo.
Mais além do que se diz há sempre, à espera, uma voz a se escrever. Um sopro-vida a germinar no arado da terra-dor de existir.
Escrita ex-grito.
Luto feito. Silêncio.
Luto acabado, morte entrelaçada em vazios de horizontes. Apropriada herança.
Fio de voz tecendo a vida por fazer.

Que nos leve mais além das esperanças este canto escrito da poesia que, por não ser só aparência, evoca-nos o frescor do saber que há em cada despertar.

“Felicidade aqui pode passar e ouvir,
 E se ela for de samba há de querer ficar.”  (Chico Buarque de Holanda, em “Olê Olá”)


                                                                  Lúcia Montes

terça-feira, 15 de abril de 2014

O BOM DA VELHICE - uma crônica psicanalítica

Jazz de Matisse
                                                                                           
É isso mesmo!  Pretendo explorar um pouco o tema da velhice pelo lado bom.
Não se trata de um complexo de Poliana, nem de uma ironia a la Voltaire, em Cândido, o otimista. Ainda não sei bem, que nome dar a este escrito, mas... vamos lá.
Em um momento de descontração ao lado de meus netos, meu neto Gabriel me surpreende com uma pergunta: “Vó... é bom ser velha?”
Ainda sob o impacto da pergunta tão simples, verdadeira, sem nenhum preconceito, uma pergunta de pura curiosidade infantil, provavelmente evocada pela alegria que eu devia estar transmitindo de estar ali com eles  envolvida nas brincadeiras daquele mundo infantil, respondo sem pensar muito:
- É bom, é muito bom.
Não estava mentindo, naquele momento essa resposta era tão verdadeira quanto a própria pergunta.
Então... uma nova pergunta:
“Quais são as vantagens de ser velho?”
Em clima de brincadeira respondo:
- Ah! Podemos passar na frente nas filas, pegar o metrô sem pagar, pagar meia entrada nos cinemas e teatros... e, ficamos por aí na conversa que serviu de mote para muitas brincadeiras no decorrer da viagem que fazíamos juntos, principalmente nas situações em que essas vantagens se apresentavam. Ele olhava para mim, com um olhar de cumplicidade, como se dissesse “vai nessa vó”, ou “passa na frente”.
Algumas vezes ainda me recordo dessa pergunta que me pegou de surpresa, principalmente pelo fato de eu ainda não me sentir integrante dessa categoria, a dos velhos, embora, oficialmente, já esteja chegando lá.
Outras vantagens vão se perfilando na medida que foco nessa questão: Quais seriam as vantagens da velhice? Haveria mesmo alguma vantagem?
Tempos depois, leio uma entrevista da atriz Meryl Streep à uma revista,  na qual,  questionada por estar fazendo comédias românticas, meio água com açúcar, ela, que já fez filmes como A escolha de Sofia e tantos outros filmes de arte premiadíssimos, responde:
-“Depois que fiz 60 anos, não tenho  de provar mais nada à ninguém, quero fazer o que me dá prazer e acho divertido.” (Evidentemente, sem deixar de ser Meryl Streep)
Pensei comigo: mais uma vantagem da velhice:  já ter dado as provas que a vida  exigiu. Trata-se, agora, de um outro “fazer” que supõe uma liberdade e ao mesmo tempo um ato de se autorizar fazer diferente.
Sem procurar, vou encontrando, em minhas leituras algumas formulações e exemplos que fundamentam essa introdução, aparentemente simples, com que  comecei este  texto.
Parto da proposição de que a vida e a psicanálise caminham na mesma direção: o real.
O real inicialmente definido por Lacan como o impossível de ser simbolizado, correlativo à experiência do trauma, será, em seu último ensino, tomado como um campo de gozo, um campo sem lei, mas que tem uma lógica própria que inclui o corpo como suporte do gozo.
Como o corpo fala na velhice!
Na psicanálise o corpo se revela como puro acontecimento, opaco ao sentido, e se manifesta, principalmente, por meio da angústia.
Numa análise, o corpo  permanece deitado no divã, posição de exclusão e inclusão, num só tempo, numa posição tão específica do trabalho analítico, que o próprio divã se tornou um signo  do “fazer análise”.
Durante um tempo desse trabalho,  o corpo pode parecer ignorado ou alheio à riqueza das associações que povoam quase  todo o campo da experiência analítica. Mas, não todo.
A entrada em cena do corpo é correlativa à entrada em cena do gozo. É aí que se dá toda a diferença. Aquele que percorreu a via de seu inconsciente, que aprendeu a escutá-lo, a lê-lo, a levar em conta a existência de um campo do real que lhe impõe a extrema solidão do Um-sozinho que se é na trama da vida, terá mais recursos para se a ver com esse corpo que fala cada vez mais alto.  Isto por que a experiência analítica  é uma experiência que lida com o dualismo vida e morte ao nível da própria estrutura do sujeito.
E que recursos teria o sujeito frente ao real cada vez mais presente na medida que a vida passa?
 Lacan formulará o conceito de sinthoma a partir das marcas de gozo que comemoram a conjunção do Um sozinho e o corpo.
Não sei se tudo isso parece muito abstrato, afinal, o que é o sinthoma?
Tal como a vida, a psicanálise vai produzindo uma desconstrução, um desmantelamento daquilo que nos serviu de suporte durante algum tempo. As coisas caem, passam e se perdem. Se pensarmos pela via do phalus, esse caminho acarreta uma destituição subjetiva, uma perda de potência fálica, um reencontro com o horizonte desabitado do ser. Isso vai ao encontro do que é formulado sobre o final de análise, como uma assunção pelo sujeito do “nada que ele é”, no nível do seu inconsciente, pois, em outros níveis da sua existência ele é múltiplas coisas. É isso que Lacan chamou de encontro com o real, ou, quando as vestimentas fálicas, com as quais nos sustentávamos, começam a se desfazer.
Porém, existe algo na estrutura do sujeito, que perdura. Há alguma coisa que não passa e que constitui a marca do próprio sujeito, seu sinthoma. Podemos dizer que o sinthoma é o que resiste do sujeito e em relação ao qual, só poderá reinventá-lo
O saber disso, nos torna menos tolos frente ao real, nos torna capazes de encontrar uma outra satisfação, além do campo fálico. Os restos não simbolizados pela operação analítica não serão absorvidos, permanecerão, para sempre, inconscientes, enodados ou não, na fantasia de cada um. Existem substâncias gozantes suplementares, objetos que se acrescentam como fontes de prazer além da ordem simbólica. Pode-se pensar em uma solidão própria do sinthoma.  Esse sinthoma é um gozo solitário, mas, a partir do qual se estabelecem novos laços com a vida.
 Lacan o situa no real e o define como: “o modo como cada um goza do inconsciente, enquanto o inconsciente o determina”.
Essa nova dimensão do sintoma, foi formulada por Lacan  trabalhando sobre a biografia de James Joyce, cuja escrita  se tornou  seu sinthoma, na medida que, por meio de sua escrita, Joyce se fez um nome. Cada um de nós também faz sua própria escrita  no decorrer da vida, de modo tal que se pode reconhecer quem  se é, pelo talho dessa escrita.
Lembro-me de Oscar Niemayer, por volta de seus 104 anos, fisicamente debilitado, mas continuava dando voz àquilo que perdurou,  perdura e perdurará mesmo depois de sua morte.  Sua voz já tão enfraquecida mais parecia um sopro  e as pessoas estavam ali para ouvi-lo. Ele ainda era, até o final, Oscar Niemayer. Um sinthoma?
Se  há algo no sujeito que perdura, também há em sua estrutura  uma variável, que escapa à determinação e impõe o novo. Determinação e liberdade, dois operadores no ato de se reinventar.
Enfim,  o simples fato de existir pode ter leveza e graça, indo além das vestimentas fálicas. Isso vem como um a mais, um gozo suplementar, um “plus”, que alguns, como os poetas, conseguem aceder: Tudo passará, “...eles passarão... eu passarinho”  no bem dizer do poeta Mario Quintana!
Respondo, agora, de forma mais elaborada a pergunta de meu neto:
- Ser velho, não é bom, Gabriel. Porém, o bom da velhice pode estar na possibilidade de se reinventar  e poder explorar recantos do nosso ser que ficaram à espera de uma nova montagem, uma outra leitura de nós mesmos, o novo sempre presente, pois, o que somos, de fato, não envelhece.

                                             Gilda Vaz Rodrigues


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

consumidores, assinantes, fidelizados, clientes preferenciais, retirados da miséria, usuários, mascarados de aluguel, credenciados da bolsa, nova classe consumidora, inquilinos do programa, manifestantes-eleitores, etc, etc, etc.... etc e tal.

                             
                                                        ...consumidores, assinantes, fidelizados, clientes preferenciais, retirados da miséria, usuários, mascarados de aluguel, credenciados da bolsa, nova classe consumidora, inquilinos do programa, manifestantes-eleitores, etc, etc, etc.... etc e tal.
Está formado, para mais um carnaval à brasileira, o massa-bloco da democrática distribuição de renda nacional.
 Mass-block, pode parecer redundante, mas vamos nomear assim o efeito lacrimogêneo da ambiguidade discursiva corrente, que cega e desvanece qualquer tentativa, manifesta ou latente, de se agenciar uma posição própria frente às nossa inquietações da vida cotidiana.
Sujeitados às várias nomeações de catalogação da burocracia vigente em nossa sociedade, vamos nos deixando encobrir pelo véu de um discurso quase soberano no reino das determinações do estilo de vida, pelo consumo.
Mecanismo próprio da formulação freudiana de que o objeto teria a genuína propriedade de apagar o desejo.
 E assim, nos entrecruzamentos do uso da linguagem com o abuso da comunicação, um enxame de apelos, por aparências cada vez mais sólidas, dissolve nossos sonhos mais particulares em ilusões de vitrines virtuais coletivas.
Os agenciadores deste discurso, ao modo de uma paixão pela mentira, para assim travestirem o ser, forçam passagem a uma atuação de comportamentos que encarnem uma espécie de ocultação, que por ser ocultação de nada, vela sua vontade de gozo levada ao extremo da cruel submissão popular.
 Nada disso é sem saber. Às vezes sinistro, ás vezes camuflado. Mas é um 'saber compor' a máscara e a cena que incitam ao respeito e suscitam cumplicidades.
'Ocultar nada' é a afirmação desmedida, e, paradoxalmente calculada, das evidências do exercício nefasto do poder de gozo. A força quase bruta desta ocultação só faz perseverar, nos indivíduos, a indução do seu desaparecimento subjetivo, ao conceder ao Outro todo o lugar e toda a decisão. 
“ Com efeito, esse discurso, que no caso poderíamos chamar de discurso do capitalista, na medida em que ele é uma determinação do discurso do mestre, encontra antes, aí, seu complemento. Longe de o discurso do capitalista se sair pior pelo reconhecimento como tal da mais-valia, parece que nem por isso ele deixa de subsistir, já que, aliás, um capitalismo retomado num discurso do mestre é justamente o que parece distinguir as conseqüências que resultaram, sob a forma de uma revolução política, da denúncia marxista do que se passa com um certo discurso do semblante.”
“ Falei do semblante, e disse alguma coisa que não é corriqueira nas ruas.
Apoiei-me inicialmente em que o semblante, que se mostra pelo que é, vem a ser a função primária da verdade. Há um certo ‘eu falo’ que faz isso, e não é inútil lembrá-lo para dar sua justa situação a essa verdade que cria tantas dificuldades lógicas.
É ainda mais importante lembrar isso porque, se há em Freud algo de revolucionário – digamos, para designar assim um certo tom, pois já adverti contra o uso abusivo da palavra –, se houve um momento em que Freud foi revolucionário, foi na medida em que ele pôs em primeiro plano uma Função que é também a sugerida por Marx – aliás, esse é o único elemento que eles têm em comum –, ou seja, considerar um certo número de fatos como sintomas.
A dimensão do sintoma é isso que fala. Fala inclusive com os que não sabem ouvir. E não diz tudo, nem mesmo aos que o sabem”  [ J. Lacan ]  
Citações extraídas do livro 18, “de um discurso que não seria do semblante”, do Seminário.

É este o estudo que, aberto a quem queira dele participar, propomos iniciar neste semestre, pela leitura passo a passo de cada lição, no cotejamento da tradução oficial com outras publicações editadas em francês,  fora de comércio,  por psicanalistas que freqüentaram estas aulas de Lacan, de 1971, em Paris.

sábado, 19 de outubro de 2013

...E, EM NOME PRÓPRIO, SEM BIOGRAFIAS, COMO SABER PERDER OS HERDEIROS?




A presença de Vinícius de Moraes invadiu o silêncio dos meus jornais, arrebatou minha tranqüilidade e me faz agora deixar de ser, simplesmente, uma possível expectadora das controvérsias em torno das vidas e das grafias... ‘Autor’izadas ou ?? Não tenho claro ainda qual seria o destino de uma vida como obra ‘não-autorizada’... Mas de qualquer forma, de minha parte, foi muito bom ler, mais que um pedido de desculpas, a posição revisitada do Chico.
 E assim me veio a questão do que seria, “A vida ‘artística’ e o contexto privado do artista???......ou ainda, a conseqüência judicial....
aos Herdeiros, a Obra??
Será que assim a vida durará mais que o necessário?, e mais ainda,  por vias cartoriais???

É ele quem escreve e é por seu poema que passo minha homenagem aos seus 100 anos:

VINÍCIUS DE MORAES – “ O HAVER”
“Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão de seu reino
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada....
Resta...
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
]Infantil de ter pequenas coragens.
Resta acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio.
.... esse antigo respeito pela noite,
esse falar baixo, essa mão que tateia antes de ter,
esse medo de ferir tocando,
essa forte mão de homem, cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta...
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil...
Essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta...
Essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir a ser.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos...”


Lúcia Montes

domingo, 6 de outubro de 2013

"Quem foi que aprendeu, na psicanálise, a saber tratar bem sua mulher?"

 Perguntinha capciosa de Lacan no seminário XVI...à página 199.

 A psicanálise não é um saber do sexual, diz ele. Não se garante uma sexologia, a ciência do sexo e do sexual,  àquele que faz uma análise!
Quanto à sexualidade, nem seu saber, nem sua prática, contudo são esclarecidos nem modificados por ele, lembra Lacan
 Mas, também, não se pode dizer que nada da experiência analítica poderia articular-se num ensino, diz ele também. Há algo que se aprende, quando se paga o preço, no discurso analítico, do abrir caminho, ainda que intuitivamente, a torto e a direito, pelo trabalho da verdade.
 E o que ela ensina é que, nesse lugar que chamamos inconsciente, enuncia-se uma verdade, cuja propriedade é nada podermos saber dela. O sexual não é pensável sem que exista a implicação na pulsão e, afinal, em psicanálise, é o inconsciente que constrói a pulsão a partir dos rastros do que se escuta e do que se lê...
Rastros...da mulher
 E como é que se "sabe tratar bem a sua mulher"? Aqui se articulam "saber" , "tratar" ...e bem! e "sua mulher".
Seria a mulher "tratável"?
 Da mulher é possível se tratar?
 É curável a condição da falta? Como tratar bem o 'intratável' da castração?
 O tratar "bem", mais além do que se fantasia sobre como se poderia abordar uma mulher, 'a' bordar, fazer borda, contornar, 'rodear', fazer a corte ao que é corte, o que seria? Um jeito? Uma manha? Um 'trato' que se possa dar ao  que seria 'sua' mulher?
 Vislumbra-se, ao referir-se Lacan a um saber sobre a mulher, uma longa caminhada, trilha do próprio caminho analítico, de um Outro ao outro, do significante ao objeto, a trilha da experiência em psicanálise.
A sexualidade, com respeito ao que  nos interessa no campo psicanalítico, constitui certamente um horizonte, mas sua essência está ainda muito mais longe.
Enfim, que, pelo menos, então, "se possam esclarecer numa análise os caminhos que o impedem, ao homem a quem essa mulher se dirige, de fazê-lo direito, gostamos de acreditar que isso se produz no final de uma análise"(Lacan,Seminário XVI, página199)

Ângela Porto

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

SILÊNCIO / SOM...


SILÊNCIO/SOM...
Imagens de Kowloon, a cidade mais caótica do mundo*
SILÊNCIO / SOM...

e  Graças à vida
a voz de Gal Costa ainda ecoa nas fibras tensas do desejo.

“Dói. Tudo dói!”
...
O vôo da voz retorna ao pouso brusco do silêncio, corte... “Dói.
Tudo dói!”
...
Salta a voz,
ousada,
ouvida
relança ao sol
as vísceras da dor.
“As cascas das árvores
crescem no escuro...
...
Tudo é Singular.”
...

Das perdas ao entalhe do luto,
do grito faz-se luz entrelaçada num rarefeito esteio de voz.
Veludo macio de som destacado da palavra
Camada derradeira da pele que abriga e pulsa
o sopro do silêncio originário da vida.

“Viver
é um desastre que sucede a alguns.” **


Lúcia Montes.

**Em negrito, palavras da canção "Tudo dói", de Caetano Veloso, com Gal Costa, no Álbum "Recanto", ano 2012

sábado, 14 de setembro de 2013

O que é que h(á)?




Como o sujeito se posiciona, frente aos  desafios e ofertas do  Outro , para lidar com suas escolhas?
Escolhas se ligam a desejos e desejar é deixar cair algo,  fazer cortes. É  como fazer um luto. Não é substituição de um objeto por outro.
 “Antes é preciso fazer o luto, o luto não é substituir o objeto, mas, sim, perdê-lo como insubstituível." (Abílio Ribeiro Alves in texto de Áurea Porto )
  Na substituição de um objeto  por outro algo do gozo persiste  e amarra o desejo . Se o objeto não cai  é o sujeito que cai com ele.
  "Do encontro do sujeito com o Outro (cultura ,sociedade ,família)  haveria uma divisão do sujeito e  a clivagem do Outro, mais a produção de um resto que é o objeto 'a'. Este resto,  instituinte  do sujeito, seria a causa do desejo. O desejo então não estaria prometido à completude, pois ele seria sempre decorrente de uma perda, na qual o sujeito se funda”(Marcio Peter de Souza Leite “A depressão como paixão da  alma")
   Querer  a completude do desejo  seria o  gozo , nunca satisfeito . Lacan o compara ao tonel  de Danaides nunca preenchido .(*) 2
  “Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma noção da falta de objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola da relação do sujeito com o mundo”.(Lacan,Livro 4, pagina 35)
O objeto a, portanto, como causa de desejo, é causa de desejo constituído na função da falta.
O capitalismo com suas ofertas sucessivas de consumo de objetos é um campo fértil para as tentativas infrutíferas de preenchimento da falta
  A psicanálise não promete ao sujeito a felicidade, mas pode abrir o círculo, daí sua importância na história. Importância que não se fundamenta na crença de um inconsciente coletivo, mas numa prática singular, experiência impar de um só leitor onde algo, que, pela repetição significante, possibilita o esvaziamento dos significantes do Outro, a queda do objeto a e a inscrição do sujeito numa nova posição frente ao desejo.
  
(*) Figura mitológica as  Danaides eram 50 gêmeas que se casaram, e na noite de núpcias mataram os seus respectivos maridos,  exceto uma que se apaixonou e assim, não conseguiu executar a ordem do pai. Pelo crime, foram castigadas a encher toneis que não tinham fundo


                                                                                       Lucia Cunha Frota 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Experiência ...repetir até soltar a voz...





Experiência " que é o sempre tratar desta clínica que prá nosso susto, de repente, de lugar nenhum, faz ressurgir, a coisa que em toda e qualquer parte se realiza. É este o desafio que temos ao lidar com o Sintoma, nesse trabalho de desvelar, desmascarar, a relação com o gozo "que é nosso real, enquanto excluído." 
E, como se destaca no texto, "A experiência psicanalítica...experiência privilegiada" sobre os termos fundamentais da Repetição para a psicanálise, esta é uma hora privilegiada de se arriscar na escrita do que é o contexto atual de 'difusão' da psicanálise, em seu 'quase pouco' de teoria.
E vejo que, nesta possibilidade de um trabalho nos termos do 'bom encontro', que se propõe,privilegiadamente, nas raízes do 'sem burocracias' e/ou formalismos.
 Encontro de quem fizer o caminho até o endereço... 
E ainda mais, o lugar escolhido: que, de bem mineiro, nos oferece as montanhas e seus recortes, sugerindo muito mais que espelhos, ecos da causa perdida, da chance falhada...mas exigente:
Uma vez mais, colocar-se publicamente a trabalho...
Repetir, até soltar a voz...
...até rastrear a letra que dá o tom da escrita de cada um. 

Lúcia Montes

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A experiência psicanalítica...um campo privilegiado - para o "Textear" , nosso encontro do dia 23 e 24/08/2013

       

Retiro das Rosas ...

  "Os ensinamentos da Psicanálise baseiam-se em um número incalculável de observações e experiências, e, somente alguém que tenha repetido estas observações em si próprio e em outras pessoas, acha-se em posição de chegar a um discernimento próprio sobre ela"(nota do editor em Esboço de Psicanálise, Freud)

Freud “ousou dar importância àquilo que lhe acontecia, às antinomias da sua infância, às suas perturbações neuróticas, aos seus sonhos. Daí ser Freud para todos nós um homem que, como cada um, está colocado no meio de todas as contingências – a morte, a mulher, o pai. Isso constitui uma volta ‘as fontes e mal merece o título de ciência. O mesmo se dá para a Psicanálise e para a arte do bom cozinheiro, que sabe cortar bem  o animal, destacar a articulação com a menor resistência. Sabemos que há, para cada estrutura, um modo de conceitualização que lhe é próprio....” (Lacan, Seminário 1, pag.10)
“ Temos de nos aperceber de que não é com a faca que dissecamos, mas com conceitos. Os conceitos têm sua ordem de  realidade original. Não surgem da experiência humana – senão seriam bem feitos. As primeiras denominações surgem das próprias palavras, são instrumentos para delinear as coisas.”(Lacan, Seminário I, pag.10)
 “Toda ciência permanece, pois, muito tempo nas trevas, entravada na linguagem.” Mas Freud se impôs submeter-se à disciplina dos fatos, afastando-se da má linguagem, quando se vale da experiência. Desde a origem, sabe que só fará progressos na análise das neuroses se se analisar. ( Lacan,Seminário 1, pág. 10)

Estas observações apropriadas de Lacan, no seu primeiro Seminário, indicam para mim o sentido da experiência psicanalítica na sua amplitude, enquanto efeitos de uma psicanálise. Apropriadas de um trabalho analítico, que a cada um cabe, a seu modo.
 "Sabemos que há, para cada estrutura, um modo de conceitualização que lhe é próprio....”
Também é verdade que o "próprio" exige a redução, das denominações que surgem das palavras, "instrumentos para delinear as coisas", até a sua "realidade original", onde os conceitos têm sua ordem, e, não, na "experiência humana".
 " Não surgem da experiência humana – senão seriam bem feitos."  Afastar-se da 'má linguagem' para valer-se da experiência é afastar-se, como princípio, do 'bem' e do 'feito', como direção ética da experiência psicanalítica. Afastar-se da "má linguagem" é ir mais além dela à 'realidade original'. E 'realidade original' é chegar ao ponto de falta na estrutura de onde, primariamente, se constitui o sujeito  às expensas de um 'outro experiente' .
Freud em o Projeto para uma Psicologia Cientifica, diz sobre a experiência de satisfação que:
“O organismo humano é no princípio incapaz de levar a termo esta ação específica, realizando-a por meio da assistência alheia, ao chamar a atenção de uma pessoa experiente sobre o estado em que se encontra a criança, mediante a condução da descarga pela via da alteração interna (por exemplo, por meio do choro)
Ao atrair a atenção de alguma pessoa auxiliar, um outro experiente, em geral o mesmo objeto de desejo, para um estado de necessidade, a via do grito servirá à comunicação com o outro que se inclui nesta ação específica. "

Da palavra 'ex(peri)ência', retiramos o radical latino peri, que, como o seu correspondente grego peira significa 'obstáculo' e 'dificuldade'. Este significado aparece claramente na palavra latina periculum (que significa 'perigo') e no verbo aperire (que quer dizer 'abrir'). Abertura vem do latim “apertura”. Interessante que tal parentesco, venha a resultar em “ato ou efeito de abrir, abrimento”, espaço aberto ou vazio, formando orifício ou fenda, ou vão.Ainda como 'forma de saber', a palavra experiência adquire também um sentido muito sugestivo, quando se considera a etimologia de Erfahrung, com que os alemães designam a noção de experiência. Exatamente por causa do seu sentido etimológico próprio, poder-se-ia pensar numa distinção entre a vivência (Erlebnis) e a experiência (Erfahrung). No radical da palavra Erfahrung, temos o verbo fahren, que significa 'viajar', 'percorrer caminhos', 'desbravar trilhas'.
Tudo isso para reduzir, limitar, chegar ao osso do que seria a  experiência em psicanálise.Um discurso sem palavras. Via o discurso, pois é dele que a estrutura se serve para encontrar a causa dele. Experiência, em psicanálise é de outra ordem, que não a 'humana'.
"É mensurável a distância entre o que define um sujeito e o que se sustenta como uma pessoa. Isso significa que é preciso distingui-los com muito rigor.Qualquer espécie de personalismo em psicanálise é propício a todas as confusões e desvios." (Lacan, Seminário XVI, pag 308)
            Também não podemos nos ater à noção de experiência como o campo de uma práxis e entendê-la como algo capaz de definir o campo de uma ciência
            Lacan lembra bem isso no Seminário  XI e observa que tomar o campo da experiência guiado pelos conceitos fundamentais introduzidos por Freud, nominalmente o inconsciente, a repetição, a transferência e a pulsão, sem se formular questões tais que coloquem em pauta continuamente seu estatuto de conceitos, a serem revistos, movimentados e postos em evolução, nos leva a nos perguntarmos onde podemos amarrar nossa prática.
            Campo da experiência e, não, conceito de experiência.
            E qual seria o ' campo da experiência' ?
             Lacan se dispõe examinar o conceito de repetição, tal como presentificado pelo discurso de Freud e pela experiência da psicanálise. E diz:" Nenhuma práxis, mais do que a análise, é orientada para aquilo que, no coração da experiência, é o núcleo do real."(Seminário  XI, pag. 55)
            E acrescenta:" O justo conceito de repetição deve ser obtido numa outra direção que não podemos confundir com o conjunto dos efeitos de transferência. Será nosso problema quando abordarmos a função da transferência, sacar como a transferência pode nos conduzir ao núcleo da repetição.Por isso é que é necessário fundar primeiro essa repetição na esquize mesma que se produz no sujeito com respeito ao encontro. Essa esquize constitui a dimensão característica da descoberta e da experiência analítica, que nos faz apreender o real, em sua incidência dialética como originalmente mal-vindo.É por isso, precisamente, que o real, é, no sujeito, o maior cúmplice da pulsão- à qual só chegaremos por último, porque só percorrido, esse caminho nos poderá conceber do quê ele retorna" (Seminário XI, pag. 71)
            A experiência em psicanálise é a experiência da falta.Experiência da divisão do sujeito. Experiência esta que, sob a égide da transferência, via um significante qualquer, permite que se possa "desenhar de maneira diferente do que foi feito, o atlas cartográfico dos jogos do significante relacionados com o sujeito. Ao fazê-lo, ela não pretende reconstituir nenhum todo novo, mas apenas inaugurar um método" (Seminário XVI, pag. 308)       Um jeito 'privilegiado', único, singular, do sujeito de se haver com a falta, depois de transformado  no que verdadeiramente é, isto é,  sujeito enquanto ele mesmo,  barrado .
“ O ponto de fechamento não é o ponto/barra de nossas linguagens de computador, é um passo de fechamento, como uma volta de parafuso, uma brecha sem remédio, cujas veias só me resta seguir, sem angústia. Uma passagem do ponto do ordinal, para o transfinito cardinal. Que me pode acontecer hoje se o desejo é indestrutível, caso Freud esteja certo? Acho que só surpresas, boas ou ruins. Recebo-as com uma fria benevolência. A vida se tornou um pouco mais amiga.” (Patrick Valas em “Passes. O sabre e o pincel” in “Trabalhando com Lacan”,2009,Jorge Zahar Ed.,R.J.,pag 133)
Começar uma psicanálise é um ato. O ato está sempre referido a um começo. E isso implica, para aquele que a inicia, ‘demitir-se do ato’, pois a estrutura que o garante, advém daquilo que não é o sujeito. Um initium, que antecede o sujeito, mas que o inaugura e anuncia. O fim da psicanálise supõe  certa realização da operação verdade, um percurso do sujeito instalado em seu falso-ser  até um ‘eu não sou’ que se encontra nesse objeto ‘a’.  Percurso feito e refeito colocado e recolocado, do lado do psicanalista, em ato.Experiência analítica. Recolocar em ato o inconsciente, cem vezes se for preciso,recolocar-se o trabalho, pois, chegado ao fim uma vez, começar a ser psicanalista é então e aí que se pode deduzir a relação que isso tem com o começo de todas as vezes. Experiência psicanalítica, campo privilegiado.O que pode mudar para sempre a relação do sujeito com a vida,  com o que se espera, pois cada um há de esperar o que lhe agradar, no que der e vier sem “amanhãs que cantam”. O discurso analítico, aquele sem palavras,  só promete a novidade: as boas e as ruins. Pois o que ele promete é clarificar o inconsciente.
 Mas aí, lembra Lacan, “ não encorajo ninguém, ninguém cujo desejo não esteja decidido.”


                                                                                                                                                                                                        Ângela Porto,16/08/2013